
“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague (…)
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague“
Chico Buarque- Deus lhe pague
De tempos em tempos eu me pego pensando sobre o porquê das coisas. Por que estudamos e trabalhamos tanto? Olho pelas ruas e vejo intermináveis engarrafamentos, pessoas correndo de um lado para o outro, sem tempo para si mesmas e para as pessoas que amam. Acho que depois da morte do professor eu me pus mais a refletir sobre isso.
Em 1848 Karl Marx e Friedrich Engels publicaram o tão famoso Manifesto do Partido Comunista. Longe de ser apenas um tratado sobre o sistema de produção que derrubaria o capitalismo, o Manifesto descreve fielmente a realidade do trabalhador pós-Revolução Industrial. O curioso é que, após exatos 162 anos de sua publicação, pouca coisa mudou:
“Com o desenvolvimento da burguesia, isto é, do capital, desenvolve-se também o proletariado, a classe dos operários modernos, que só podem viver se encontrarem trabalho e que só o encontram na medida em que este aumenta o capital. Esses operários, constrangidos a vender-se diariamente, são mercadoria, artigo de comércio como qualquer outro; em conseqüência, estão sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado.
O crescente emprego de máquinas e a divisão do trabalho, despojando o trabalho do operário de seu caráter autônomo, tiraram-lhe todo atrativo. O produtor passa a um simples apêndice da máquina e só se requer dele a operação mais simples, mais monótona; mais fácil de apreender. Desse modo, o custo do operário se reduz, quase exclusivamente, aos meios de manutenção que lhe são necessários para viver e procriar. Ora, o preço do trabalho, como de toda mercadoria, é igual ao custo de sua produção. Portanto, à medida que aumenta o caráter enfadonho do trabalho, decrescem os salários. Quanto mais se desenvolvem o maquinismo e a divisão do trabalho, mais aumenta a quantidade de trabalho, quer pelo prolongamento das horas, quer pelo aumento do trabalho exigido em um tempo determinado, pela aceleração do movimento das máquinas etc. A indústria moderna transformou a pequena oficina do antigo mestre da corporação patriarcal na grande fábrica do industrial capitalista. Massas de operários, amontoadas na fábrica, são organizadas militarmente. Como soldados da indústria, estão sob a vigilância de uma hierarquia completa de oficiais e suboficiais. Não são somente escravos da classe burguesa, do Estado burguês, mas também diariamente, a cada hora, escravos da máquina, do contramestre e, sobretudo, do dono da fábrica. Esse despotismo é tanto mais mesquinho, odioso e exasperador quanto maior é a franqueza com que proclama ter no lucro seu objetivo exclusivo.”
Esta ainda é a realidade que encontramos nas fábricas. Lembro-me de uma aula em que um professor de sociologia da faculdade declarou que antigamente as empresas não se importavam se o operário desenvolvia problemas de saúde relacionados ao trabalho (tendinite, problemas de coluna, articulação, etc). Bom, de fato antigamente as coisas eram muito piores, mas não creio que pode-se afirmar que não ocorre mais o descaso. Ainda existem pessoas com visão atrasada em relação ao trabalho e à maneira através da qual vendemos nossa força de trabalho. Conheço inúmeros “companheiros” (como os próprios sindicalistas adoram falar) que desenvolveram sérios problemas de coluna devido às condições de trabalho durante os últimos 10 ou 20 anos. É como um colega da faculdade (e de empresa também) declarou: disse que odiava a forma como nós trabalhadores destruíamos nossos corpos trabalhando, realizando esforços repetitivos e prejudiciais, dormindo apenas 4 horas e meia por dia.
Não, não sou mais uma comunista alienada. Aliás, nem sou uma comunista. Considero o comunismo como uma boa idéia, e com uma boa intenção por trás da sua criação, mas acho que já tivemos exemplos suficientes de que esse sistema (infelizmente) não funciona (vide URSS, Cuba, etc).
Enquanto vamos seguindo vendendo nossa força de trabalho, lembrando Chaplin em seu Tempos Modernos (clique para ver).
(Imagem: 1933, Tarsila do Amaral, Operários)